terça-feira, 3 de abril de 2012

3º passo - Sangue e palmas

Aos quarenta minutos deste Domingo, precisamente aos quarenta – tantas coisas são quarenta nas coisas da fé, como o Êxodo e a Quaresma, e todas apontam para Aquele dias, aqui, esta semana que se inaugura, na Basílica do Santo Sepulcro, aos quarenta minutos do Domingo de Ramos! – iniciámos a celebração da vigília do Domingo.

Tínhamos descido a pé, em cortejo silencioso, precedidos pelo Custódio da Terra Santa, Fr. Pierbaptista Pizzaballa OFM – Ordem dos Frades Menores, os primogénitos da criação de Francisco, o que tão sofregamente bebeu do Cálice pascal que o seu corpo mereceu em vida os sinais da Morte do Senhor –, ao ritmo sonoro e certo dos Kawas, a rua de S. Francisco e, antes de entrar na da Via Dolorosa, virámos à direita, até encontrarmos a de Santa Helena, à esquerda, em degraus, que leva a uma das entradas do adro fronteiro às Portas da Basílica. Não há, no mundo, adro tão adro como este, sempre, mas particularmente nestes dias, quando a Páscoa já chega; faz lembrar, qualquer que seja a hora do dia ou da noite, uma lembrança de adro de Igreja de Diniz, entre os Fidalgos e a Morgadinha. Mas, aqui, a aldeia não é de província; aqui bate o coração do mundo e o mundo vem aqui depor o coração. A Praça de São Pedro, na Roma dos sucessores do Apóstolo, essa sim, na sua dimensão e imponência, percebe-se província, paradoxalmente, se comparada com este pátio exíguo, arquitectonicamente pobre, com dois acessos, ouso dizer, miseráveis, que se não sabemos nem damos por eles, mal iluminado, paredes altíssimas por todos os lados, uns degraus irregulares e desiguais e duas portas à nossa frente, uma emparedada e outra aberta. É!, logo no adro a Basílica do Santo Sepulcro nos obriga a perceber que aqui nos encontramos nas entranhas da história, que é visceral o Mistério a penetrar, que o lado de dentro das coisas é que é a substância da realidade.

Entramos ordenados e dirigimo-nos à capela da Aparição, contornando a Pedra da Unção e atravessando a Ressurreição – é!, a Anastásis, diz-se em grego – passando em frente da edícula do Santo Sepulcro. A este espaço imenso e circular, que na tarde sábado já havíamos percorrido três vezes, também se chama a Rotunda. Saindo dela e seguindo em frente, atravessámos o Lugar do altar da Madalena e chegámos à capela da Aparição a Maria, nas mãos dos franciscanos já desde o século XIV. Aqui se situa o seu coro, onde cada dia e cada noite celebram o ofício divino. Aqui se conserva o Santíssimo Sacramento, numa estreita e altíssima abside, dentro de um globo como se fosse uma Presença entranhada no mundo, sobre um mosaico não figurativo, apenas um cosmos azul pontilhado de ouro e brilhante, brilhante. Por esta capela se acede ao convento dos franciscanos que servem o Sepulcro.

E então, aos quarenta minutos do Domingo de Ramos, inicia-se a Vigília nocturna.
O invitatório é uma chamada universal à alegria, com as palavras do salmo 99: alegre-se no Senhor a terra inteira; Pange língua, cantamos no hino o triunfo do Crucificado. Segue-se a salmodia, intercalados os cantos por largo compasso de silêncio que culmina em oração, entoada pelo Custódio, que preside; as Leituras próprias, da Epístola aos Hebreus e de Santo André de Creta, os respectivos responsórios e, depois, uma antífona que nos transporta no ondeado nocturno da melodia gregoriana ao combate de Getsemáni: Pai, se este cálice… e abre o espaço a três cânticos do Testamento Antigo, que nos levam a Jeremias e às lamentações na tribulação e a acolher, de Ezequiel, a promessa de um coração novo e de um espírito novo.

Nas pausas, ouvíamos a Vigília dos Gregos, a vinte metros, no espaço magnífico do Katholikon, originalmente coro dos cónegos, hoje espaço exclusivo dos nossos irmãos ortodoxos gregos, um mosaico do Pantocrator (Senhor de tudo, à letra, em grego) na cúpula, um hemisfério de mármore branco na sua base, a que se chama o ‘umbigo do mundo’. Tinha que ser aqui. Chegava até nós o som dos sininhos que distinguem os seus turíbulos dos da Igreja latina e é como se o som da sua persistente incensação suscitasse nos nossos silêncios entre os salmos a elevação e o perfume do incenso.

E… é!, a Rotunda convoca-nos de novo, a lembrança circular da tarde que vivêramos ainda viva e de novo chamados à vida, a entrarmos na Ressurreição – Anastásis, no grego, digo outra vez a fim de não esquecermos a palavra na língua que primeiro a passou a escrito, para que tal boa notícia (evan-guélion, em grego também) não se perdesse ou se diluísse na imaterialidade da mensagem apenas dita; é que, sabemos bem, quem conta um conto aumenta um ponto, e neste caso, nada se poderia aumentar sem estragar, porque o conto acabava já numas reticências tão longas, abertas e profundas como a própria eternidade de Deus. Talvez por isso, o caminho da transmissão oral à fixação escrita da Vida, Morte e Ressureição tenha começado antes de mais pela Morte e Ressurreição.

Como havíamos feito todas as noites de sábado ao longo da Quaresma, entoámos o benedictus – Bendito o Senhor Deus de Israel que visitou e redimiu o seu povo – cantando aleluias, que aqui nunca cessam, em movimento redondo em torno do Santo Sepulcro, velas na mão e uma luz belíssima a crescer, a crescer, dentro da noite, até ser maior que a noite, que todas as noites, os diáconos balouçando dois turíbulos, caminhando em frente do Custódio, que erguia acima de si um Evangeliário muito belo, o órgão, cujos tubos se encontram instalados nas galerias superiores à volta da Rotunda, invisíveis, despertava para o invisível, crescia subia as paredes verticais galgava as alturas rolava na concavidade imensa da cúpula e vinha, mansamente, um respeito sem fim pela nossa debilidade, entregar de novo às nossas vozes o espaço do tempo de mais uma estrofe - graças ao coração misericordioso do nosso Deus que das alturas nos visita como o sol nascente –; agora expectantes e imóveis, após a última volta em torno do Sepulcro, porque o Custódio, evangeliário encostado a si, baixou-se e entrou na edícula, e a música fazia estremecer longamente o ar interior enquanto esperávamos, como se a noite dos tempos se abrisse e dissesse que não fora senão a espera de que alguém saísse daquele Túmulo, e a indigência cósmica, esse tremendo privilégio do homem, hesitasse entre o sacrílego e o ansioso nas notas que atordoavam as pedras e o ar que respirávamos; e subitamente os diáconos surgiram às arrecuas incensando, rasgando o caminho do Sepulcro até nós e o Evangeliário, boa nova, erguido de novo, mais alto agora, pelas mãos servas do Custódio, emergiu oferecendo a sua beleza como gramática ao Verbo e as notas do órgão que respirávamos intimamente, como se a música nos quisesse ensinar a ouvir intimamente, vieram entregar-nos a última estrofe do Cântico de Zacarias – para iluminar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte e dirigir os nosso passos no caminho da paz.

Já na capela da Aparição, agora mais, ainda entoámos o Gloria Patri e, depois, com voz também serva, o Custódio cantou a Manhã da Ressurreição no Evangelho de Marcos. Estava feito. Rezámos louvando muito Jesus Cristo, chamando-Lhe, em latim, todas as coisas belas que o amor ao longo dos séculos inspirou aos pequeninos e aos pobres e suplicando por todos e por tudo, fomos abençoados e saímos para voltar, cinco horas depois.

Cinco horas depois, é difícil de contar. Procissão para ir chamar o Patriarca. Entrada sem cerimónia do Patriarca Fouad Twal na Basílica. Paramentação vermelha. Deslocação para junto do Sepulcro. Canto de antífonas apropriadas. É grande a multidão, muitos os padres. Patriarca chega à entrada de edícula. Dentro já tinham sido colocados muitos ramos de oliveira e palmas. Patriarca situa-nos entre o fim da Quaresma e o início da Semana Santa, com as palavras do Missal. Diácono proclama episódio da Entrada Triunfal, Evangelho de João. Patriarca diz a longa e evangelicamente pormenorizada oração de bênção dos ramos; hissope na mão entra no sepulcro, demora e sai, asperge os ramos que muitos traziam já. Um a um os padres aproximam-se do Patriarca que a cada oferece uma esguia e fina palma, retirada pelos fâmulos da edícula do Sepulcro. A toda a assembleia são dadas palmas e ramos de oliveira. E, é!, o apelo da Ressurreição é forte e voltamos à Rotunda que Ressurreição se chama e nos chama. A Jerusalém dos cristãos é concêntrica aqui, como o é o cosmos e a história, como o são, livremente, os destinos pessoais.

Mais uma vez, tratava-se de cumprir três voltas, o órgão elevava-se levando o incenso, as vozes cantavam e as palmas, as palmas muitas, os padres, anciãos (em grego, presbyteros) aqui pueri hebreorum cum ramis palmarum (latim, crianças dos hebreus com ramos de palmeira) alinhados quatro após quatro e mais quatro após quatro, muitos, vestidos de sangue, multidão com a multidão para que são, irmanados, todos plebs hebrea cum palmis (latim, povo hebreu com palmas) e ramos de oliveira a chamar por paz e os padres revestidos do sangue da casula, acenando as palmas e as palmas dançando no ar sagrado em torno do Santo Sepulcro do Deus mártir às mãos dos homens para dar testemunho garantido com sangue sobre a verdade de Deus e do homens, do Deus Homem Morto aqui e que aqui voltou à vida, as palmas proclamando que o martírio é loucura, que só os loucos são mártires, freneticamente agitadas não por vento mas por vontades, dançando, dançando, as vontades cantando, as palmas dançando, o vermelho do sangue sobre nós, as palmas da loucura do martírio nas palmas das nossas mãos e o tempo, sob a majestade da cúpula donde a luz desce clara, o tempo progredindo linear rectilíneo mas em círculos concêntricos, cada passo novo de uma novidade nova que as palmas, como se proclamassem a loucura do martírio, profetizam nas palmas das nossas mãos, das nossa mãos ungidas e, surpreendentemente, à terceira volta a procissão desvia-se, os padres as palmas nas palmas ungidas das mãos, e a procissão vai contornar a Pedra da Unção do Corpo Morto do Deus vivo, a loucura do martírio que as palmas lembram dançando no ar e nas palmas das nossas mãos ao ritmo da liberdade. Hossana! Hossana! Hossana!

Até que pára diante da entrada do Sepulcro. O altar é aí colocado. Kyrie eleison (do grego: Senhor tente piedade). Palavra, Isaías a narrar a aprendizagem discipular da escuta que é como quem diz a obediência e, narrada aos Filipenses, a Kenose (do grego, também: esvaziamento) do Senhor, por isso exaltado. E a Narração da Paixão, em S. Marcos. Cantada. Em latim, nas mãos de todos em mais cinco línguas. O esplendor da Beleza, decantado e limiar sacrifício puro da voz ao Verbo, criatural humildade. Encostados à edícula, na sua capela do outro lado, os Coptas, que haviam interrompido a sua liturgia do V Domingo da Quaresma para permitir a procissão dos Latinos já em Domingo de Ramos, tinham retomado e a melopeia triste do seu canto penitencial enchia de lamento as pausas para respirar dos cantores da Paixão; às vezes, parecia que os trinados do lamento do seu solista, elevando-se, se inscreviam como iluminuras sobre a linha simples e depurada do Canto da Paixão, o esplendor da Verdade, num silêncio suspenso das alturas da abóboda por onde o luz nos chega e se faz crer, aqui, tempo e espaço, indefectível.
Silêncio, de novo oração por todos e por tudo, polifonia lenta embebida nas dores do mundo o cálice da amargura entoada pelos seminaristas da Custódia. Liturgia Eucarística. Silêncio de novo, vazio habitado carregado de Presença como a claridade hoje do Sepulcro, a fundar na luz os dias a chegar. Ritos finais.

Por S. Francisco acima, Santo Agostinho, como Francisco um convertido, subia comigo. No convento de São Salvador, nos poucos minutos antes de descer ao refeitório onde a Comunidade me faz sentir um seu, após quatro horas – que horas!, mil anos nos átrios – na Basílica do Santo Sepulcro, bailavam entre palmas e claridade no meu espírito as palavras de Agostinho apenas lembradas, talvez assim Ó Beleza, tão antiga e tão nova, tarde te amei Quão tarde te conheci, Jerusalém! E ainda havia mais Jerusalém para viver.

Princípio da tarde, rumo a Betphagé. De todos os lados vinha gente, gente e mais gente, gente de todas nações, gente de todas as idades, idosos, bengalas, pelo braço de filhos e crianças aos ombros de pais, gente na força da vida e gente no tempo da promessa de chegar, gente muita gente, uns trajados de cerimónia – as crianças das paróquias da Terra Santa, que belas!, na solenidade do vestir – outros autênticos montanheiros, displicentes turistas ou praticantes de algum desporto, ocidentais e orientais, do hemisfério norte e do hemisfério sul, feições, tom da pele, tipo de cabelo, ninguém faltou, era de facto um povo de todas as nações, parecia o Apocalipse, parecia que o claustro claro da Igreja do Pater ali tão perto, onde havíamos de passar, tinha vindo a Betphagé, trazendo os orantes de cada mosaico – na Igreja do Pater, no cimo do Monte das Oliveiras, existe um painel de azulejos com o Pai Nosso em cada língua da terra –; cada grupo dizia-se a si nas cores dos bonés, das camisolas ou dos lenços em volta do pescoço, dos hábitos religiosos, conservadores e progressistas, com tradição ou recém-chegado à vida da Igreja, movimentos de esquerda e de direita e de centro, para quem saiba o que isto seja, escuteiros e mais escuteiros, doze grupos cada um sua fanfarra, os bombos grandes eram maiores que alguns lobitos e avezinhas, bandeiras e estandartes, cartazes e faixas, gente, gente só a começar e já em grupos, palmeiras altas fortes e tontas e palmas baixas e finas e loucas fugidas da Basílica e palmas outra vez, destas, algumas autênticos monumentos de arquitectura erguidos por dedos hábeis na arte de entrançar – que é uma das mais importantes de aprender, Deus o diga aqui – e muitos muitos ramos de oliveira e flores, muitas flores de muitas cores, de todos os nomes e iguais com nomes diferentes nas línguas diferentes dos que as traziam.
Ia começar a Procissão dos Ramos, de Betphagé para Jerusalém, pelo Monte das Oliveiras, passando ao Getsemáni, muito importante, dizia-me o padre Pizzaballa, Custódio, a única grande expressão pública, externa dos cristãos em Jerusalém. Num palco com bastidores abertos a nascente, ele e o Patriarca, o Bispo Melquita, os Bispos auxiliares do Patriarcado e os seminaristas menores já batina e faixa vermelha e os maiores. Duas propostas de oração para uma procissão que também seria momento de prece: paz e justiça na Terra Santa e em todo o mundo e conversão pessoal dos corações. O Evangelho de Marcos a comemorar. A organização – difícil!, esforçada!, só Deus sabe! – da procissão.

O movimento inicia-se lentamente na luz branca da tarde, céu azul, sol intenso. Não se percebia porquê tanta lentidão até que, no primeiro alto do percurso, foi possível ver: era mesmo muita gente, uma multidão compacta, obrigada a abrandar quando o caminho se estreitava. Era uma festa, a mais extraordinária manifestação de alegria que me lembro ter visto. Instrumentos musicais de todos os tipos e de todas as culturas, desde batuques e afins africanos, às guitarras dominantes entre os sul-americanos, europeus com violinos e flautas, as guitarras eram mesmo muitas e transversais, como as pandeiretas, chocalhos, e muito mais, mas principalmente vozes, afinadas ou desafinadas, graves ou agudas, fortes ou fracas, em tantas línguas: Que alegria quando me disseram vamos para a Casa do Senhor, os nossos passos já te vêem, ó Jerusalém!
Nos terraços e janelas e varandas e pátios, nos passeios onde os havia ou na beira da estrada quando cabiam, muitos a ver, muçulmanos a maioria, que atravessávamos Jerusalém Oriental, muitas mães e muitos muitos filhos a ver passar a procissão – o andamento e o calor humano lembravam Villaret e a nossa aldeia, que Deus a proteja, aqui de facto uma Jerusalém aldeã – descontracção evidente no rosto, alguns vi-os bater o ritmo dos cânticos com as mãos ou estalando os dedos.

Mais de duas horas tinham passado. A alegria crescia, sem esmorecer. As paragens eram momentos para cordões em dança aos círculos, como se a edícula estivesse ali, os mais jovens pulavam entre aclamações, parecia um salmo de louvor ao vivo. Muitos grupos já se entrelaçavam, já muitos rostos se tinham aberto irmãmente a desconhecidos mas irmãos. Os meios de comunicação social em directos e chamam para entrevistas. Rosários a correr entre os dedos, há tempos de oração, nesta procissão de procissões, cada cinquenta ou cem metros vai na sua e todos vão na mesma, sem uma instalação sonora que materialize a unidade entre as gentes ao longo do itinerário. Ao mesmo tempo, daquele quilómetro e meio de multidão, poderiam erguer-se catorze cânticos diferentes ou mais.

Getsémani, tocam os sinos jubilosamente solenemente longamente a acompanhar-nos até à Porta dos Leões, dita de Santo Estêvão, porque perto terá sido apedrejado o primeiro dos mártires cristãos: Lauda Sion! Já várias vezes atravessara esta porta, ao longo destas semanas. Mas só hoje me dava conta que entrava em Jerusalém e do que é entrar em Jerusalém.
Quase três horas haviam passado, o trajecto, o que a Tradição consagra como o que Jesus terá percorrido aclamado como rei antes da reviravolta das multidões que alguns dias depois gritarão a pedir a sua crucifixão.

A Igreja de Sant’ Ana, também segundo a Tradição construída sobre a casa da natividade de Maria, perto da piscina de Betesda onde, diz João, Jesus curara o doente que nunca conseguia chegar às águas quando estas se moviam, abriu as suas portas aos que quiseram entrar e foram muitos os que foram permanecendo ao longo da mais de uma hora que a procissão demorou a ir chegando. O Patriarca ia falar e falou, em árabe primeiro, porque a maior parte dos presentes eram de língua árabe, e depois em inglês, para quem soubesse. Falou da Paixão de Cristo e da natural consequência da participação na procissão: a definição de cada um pela atitude de um dos vários intervenientes dos acontecimentos a comemorar esta semana aqui: Maria ou Madalena, Pedro ou Judas ou João, as santas mulheres ou as mulheres de Jerusalém, Verónica ou Simão, Herodes ou Pilatos, ou só parte da multidão, inconstante e volúvel. E deu a bênção, com a relíquia da Santa Cruz que aqui é de crer que seja mesmo.

Tive pena que não fosse as palmas antes do sangue, como é costume e manda a liturgia. Mas aqui é assim.
Ao sair a custo do recinto, como se estivesse a arrancar-me do meu Lugar de sempre e para sempre aqui voltaram-me as palavras de Agostinho: Ó Beleza, tão antiga e tão nova, tarde te amei. Quão tarde te conheci, Jerusalém!, e por causa da Beleza lembrei-me de uma interrogação, a do príncipe Michkine, acho que é assim que se escreve – O idiota, de Dostoievski: Que beleza salvará o mundo?, e por causa das palavras do Patriarca que ainda pairavam sobre o rufar dos bombos e das caixas e do chinfrim das gaitas de foles das fanfarras dos escuteiros lembrei-me de um outro príncipe, este maquiavélico, que teorizou o poder. E sei que a Páscoa aqui se percebe mais profundamente como a necessidade visceral de escolher.

Hoje, desde os quarenta minutos do dia, todo o dia foi beleza. Será esta a Beleza que salva o mundo? Aqui, tempo e espaço, em pleno Quinto Evangelho, chega a ser evidente que sim.

Jerusalém, Domingo de Ramos, 1 de Abril de 2012
Pe. José Nuno

ps – os próximos três dias serão de silêncio, por causa dos três seguintes. Há muita Beleza por pousar. E durante o Tríduo inevitavelmente serei mais curto. Tentarei mais simples, também. Votos de bela Semana Santa!

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