domingo, 8 de abril de 2012

6º passo - Sábado Santo - Deus a entrançar colunas de incenso

Ainda silêncio expectante em toda a Igreja Católica, na Basílica do Santo Sepulcro, o lugar comprovado do Sepultamento de Cristo, em Jerusalém celebrou-se a Vigília Pascal já neste amanhecer, estranho porque faltou o silêncio quieto e longo do Sábado Santo, aqui, precisamente aqui, exigência de Statu Quo, como se a fidelidade ao lugar, obrigasse à abdicação da fidelidade ao tempo.
Sem o prelúdio da expectação sabática – o sábado, o tempo sabático é sempre tempo de expectação porque de engendramento, de viver à espera e da espera, de educar a espera para o Dia do Senhor, para o Novo, para o Primeiro Dia em cada Semana, memória de amanhã e profecia do definitivo Primeiro Dia, Dia Único, aquele em que o Senhor virá e rasgará no horizonte a irrupção da eternidade – a Vigília matutina foi no entanto real, o benefício do espaço, aqui, compensou o prejuízo do tempo; foi ao Segundo Dia, pouquinhas horas depois de termos deixado o Senhor, portas fechadas da edícula do Túmulo santo, ungido e beijado jazente sobre a pedra fria de mármore, lençol branco de linho sem costura, como a túnica sorteada, a envolve-lO.
À entrada da Basílica, nesta manhã reservada apenas para quem vinha à Celebração, acendeu-se o lume novo, rito significativo aqui destituído de muita da sua profundidade simbólica, uma vez que o Círio, o Ressuscitado em ícone a envolve-lo dito sobre a cera – os ícones não se pintam, escrevem-se – é aceso a partir do fogo que arde junto ao Túmulo desde a celebração do Novo Fogo da Páscoa Ortodoxa do ano passado, porque a deste ano será oito dias depois da celebração dos católicos. Segundo uma Tradição de sempre, que o próprio papa Urbano VI usou como argumento para pregar a Cruzada, em 1095, esse Fogo vem directamente de Deus; passo a palavra à minha amiga Marie-Armelle Beaulieu, directora da edição francesa da revista Terra Santa, que estudou o assunto detidamente: «todas as chamas do Túmulo foram extintas e as portas da edícula fechadas foram seladas por uma camada de cera de abelha de dois ou três quilos. Previamente a edícula foi revistada de cima a baixo para assegurar que não existe nenhum meio de acender as candeias. Aí deve entrar sábado pelas três horas o patriarca ortodoxo, depois de ter dado três voltas ao edifício, seguido de monges e de padres implorando a Deus para realizar o milagre (…) no entanto não ele que acende as candeias mas o próprio Senhor. É o Milagre do Santo Fogo que se perpetua através dos anos (…) o patriarca na edícula, seguindo o ritual da celebração, toma a(s) candeia(s) acesa(s) pelo Senhor e distribui o Santo Fogo, começando a fazê-lo sair da capela dita da aparição dos anjos, vestíbulo do Túmulo propriamente dito, pelos dois orifícios laterais. Depois a multidão partilha-o e a igreja ilumina-se de milhares de velas ao ponto de ela própria parecer arder». Esta é a grande Noite anual na vida da Basílica do Santo Sepulcro. A importância deste rito é tal que, no aeroporto Ben Gurion, estão aviões à espera: vão levar o Santo Fogo a Moscovo, a Atenas, a Sófia, a Bucareste, capitais do mundo ortodoxo. Já se adivinha que esta Noite vem a caminho, as ruas de Jerusalém e a Basílica cheias dos brancos belos rostos largos louros, leste europeu, olhar azul, elas cabeça nobremente envolvida em véus.
A chama do Círio Pascal da Vigília dos latinos é colhida no Santo Fogo dos Gregos, no do próprio ano se a sua celebração da páscoa já foi, no do ano anterior, se ainda vivem a Quaresma. Parei diante deste gesto, que só hoje percebi ser assim, a tentar ver se o que se perde de um simbolismo não se ganha num outro simbolismo.
Aqui, a vida da Basílica é assim, com cinco diferentes caminhos eclesiais a cruzar-se e a convergir e a divergir, e a viverem paralelos e a encontrarem-se cordialmente, um Statu Quo mais vinculativo que os Dez Mandamentos para os Judeus, nossos pais na fé, que também hoje estão em Páscoa. Ainda hoje precisamente o Dia foi significativo. De manhã estavam só os Latinos a celebrar a sua Vigília. À tarde, porque todos os outros são visitados de hoje a oito pela Páscoa, todos a viver o Sábado de Ramos, ofícios e procissões belos e longos; a procissão dos latinos teve que esperar que os Gregos viessem à capela da Aparição do Ressuscitado à Virgem, porque aí está a Coluna da Flagelação que os Gregos também veneram, para poderem partir, rumo ao altar da Divisão das Vestes de Cristo, que é dos Arménios, pelo fim de cuja procissão depois tivemos que esperar para podermos cantar solenemente as Vésperas diante da edícula do Sepulcro e antes tínhamos interrompido os rituais dos Coptas com as três voltas redondas em torno da edícula, tendo eles, por seu turno, enriquecido as pausas do nosso Ofício com a cadência estranha dos seus cantares egípcios. Tenho pensado que Deus passa a eternidade a entrançar um cordão, um Deus cordoeiro de mãos hábeis como as da Mãe de minha Mãe, a avaliar pela sua trança na fotografia a preto e branco do Dia da sua Comunhão Solene, um Deus cordoeiro, sentado naquele lugar do céu onde chegam as orações de todos e Ele a receber eternamente os diferentes fios que nós cá fiamos e desfiamos em baixo e a entrança-los, para fazer um único cordão que depois nos lança e a gente sobe e havemos todos de nos encontrar, mais ou menos no sentido que dizia, no Testamento que escreveu para a eventualidade do martírio, Christian de Chergé, o Abade do Mosteiro de Santa Maria do Atlas, Tibhirine, Argélia, assassinado com os seus monges por terroristas fundamentalistas extremistas islâmicos: «Eis que poderei, se agradar a Deus, mergulhar o meu olhar no do Pai para contemplar com Ele os seus filhos do Islão como Ele os vê, totalmente iluminados pela glória de Cristo, frutos da sua Paixão, investidos pelo dom do Espírito cuja alegria secreta será sempre estabelecer a comunhão e restabelecer a semelhança, jogando com as diferenças». É!, um Deus cordoeiro, espero que a “banalidade” da profissão escolhida não fira ouvidos mais susceptíveis, que Ele disse-se a Si mesmo Pastor e Agricultor, não disse só Médico, se é que alguma profissão é mais digna que outra, em vez das pessoas que as exercem.

Muitas vezes tenho pensado neste mártir profeta contemporâneo pouco falado entre nós, li dele e sobre ele nestes meses e Jerusalém chama insistentemente pelo sentido do seu martírio, profeta morrido fora dela. Vinha a falar de relações entre igrejas e as palavras de Chergé são sobre diálogo inter-religioso, mas o que serve ao mais largo também abriga o mais próximo. E aliás creio com experiência do terreno agora, atrevimento de quem só esteve aqui dois meses, ignorância portanto, que o progresso do caminho do diálogo entre as Religiões do Livro filiadas em Abraão, depende da paz em Jerusalém.

É!, hoje, aqui, já celebramos a Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, coração da fé dos cristãos todos da Basílica do Santo Sepulcro. Sim!, que a Ressurreição é artigo de fé, não da evidência científica, que essa fica pelo que a exegese, a arqueologia e a história dizem e estas nada dizem além da Morte e do Sepultamento de Jesus, aqui, neste Sepulcro santo – neste ponto, diria Pedro Lain Entralgo, o médico e filósofo espanhol que marcou o séc. XX cultural do país vizinho, a ideia é esta e é muito importante para evitar discussões inúteis e infrutíferas entre crentes e não crentes e entre uns crentes e outros crentes: só o penúltimo é certo, o último é e será sempre incerto, o que, trazido para a Páscoa de Cristo diz que a sua Paixão e a sua Morte são certas, sendo a Ressurreição, porque palavra sobre o último, incerta, a requerer a aventura maior do espírito humano que é acreditar para além da evidência, o que, trazido para o mistério da nossa humanidade nos coloca perante a morte a nossa própria morte, tema relevante neste dia suspenso junto ao Sepulcro de Jesus, e diz que a morte é certa basta ver, quanto ao além morte, é igualmente legítimo acreditar na ressurreição, como os cristãos acreditam, ou na aniquilação, como acreditam muitos agnósticos e ateus, ou na reencarnação, como acreditam os que se revêem em Tradições filosóficas e religiosas do Extremo Oriente.
É Páscoa. Devo terminar porque o Domingo começa poucos minutos depois da meia-noite com o Ofício que hoje deve ser bonito com os sininhos dos turíbulos orientais, treze – os Doze mais Paulo – a tilintar lembrando no acto de incensar que a Igreja é apostólica, fundada sobre os Apóstolos, todos com rosto no umbral das Portas do Santo Sepulcro, os sininhos a tilintar no tempo de pausa que o ofício dos Latinos deixar suspenso no ar incensado. Gosto de pensar Deus a entrançar colunas de incenso.
É Páscoa! Hoje já aqui, no fim da Vigília Pascal estranhamente ao fim da manhã, subia a rua de São Francisco, começaram os sinos a tocar, depois de dois dias calados. Entendi porque é que aquando da chegada de Saladino a primeira coisa que foi impedida foram os sinos. O seu repicar festivo diz a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo onde ela aconteceu, aqui, Jerusalém. O seu badalar oferece à Cidade uma vos diferente que diz uma realidade nova e surpreendente.

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